O lobisomem da Serra da Mantiqueira

O relato que lhes contarei ocorreu no início dos anos 40, na zona rural da cidade Queluz, localizada no Vale do Paraíba Paulista. Passou-se não comigo, mas com a minha avó paterna, quando residia em uma humilde casa, de pau a pique e coberta de sapé, em um lugar solitário e silencioso, no sopé da Serra da Mantiqueira.

Tamanho era o grau do isolamento, que não havia vizinhos por perto e ela, a vó Zezé, ficava a maior parte do tempo sozinha, já que o meu avô trabalhava na ferrovia, na cidade, e lá deveria permanecer em todos os dias úteis, retornando somente nos finais de semana para casa.

Os filhos, em número de cinco e todos ainda pequenos, com pequena diferença de idade entre eles, tomavam a maior parte do tempo dela, ocupada entre os afazeres domésticos, a lida na roça, e o trabalho de preparação do fumo de rolo. Esta atividade rendia uma renda extra para a família e exigia muita paciência, pois cada folha do tabaco, após devidamente curada, precisava ser entrelaçada umas às outras, formando uma perfumada corda, que era enrolada em um tronco para secagem. Depois de pronto, o fumo era vendido na cidade.

Contava a minha avó, que era comum na calada da noite, ouvir fortes uivos de lobos. Aquele som ecoava por entre as grotas daquela mata fechada e, segundo ela,  chegava a dar calafrios no corpo, tal a proximidade com que aqueles animais permaneciam das casas.

No entanto, o grande medo, não era com os lobos propriamente ditos, mas com os lobisomens, lenda muito difundida e popular, especialmente nas áreas rurais de todo o Brasil. Todos que viviam nos arredores tinham algum tipo um relato de encontro com esses misteriosos seres, metade lobo, metade gente, que criavam pânico nas noites de lua cheia. A preocupação era ainda maior quando se tinha em casa um filho pagão (ainda não batizado), pois o lobisomem tinha predilação por atacar essas crianças, que por não terem ainda passado pelo sacramento da igreja, estariam teoricamente desprotegidos das benesses divinas e sujeitos ao ataque do terrível monstro.

Um dia ela estava sozinha em casa, preparando as folhas de tabaco (retirando os talos das folhas), quando um uivo muito forte e muito próximo a assustou. Pôde perceber que vinha do seu próprio quintal, a poucos metros da porta, e parecia se aproximar cada vez mais da casa. Ao perceber o perigo iminente, pegou as crianças, levou todas para um dos quartos, trancou a porta e pegou a velha espingarda de carregar pela boca. 

A criatura parecia se aproximar mais da casa, pela proximidade dos barulhos. Com a Laport já com os dois canos carregados, abriu a janela e mirou no escuro, em direção aos sons e puxou o gatinho. Ocorre que a espingarda, que ficava em cima do fogão à lenha, acabou acumulando sobre o cão (dispositivo que dispara a espoleta no momento do tiro), uma considerável quantidade de teia de aranha. No momento em que um dos gatilhos foi acionado, a faísca gerada pela espoleta espalhou a chama até o outro lado, e a outra espoleta acabou sendo também acionada e os dois tiros saíram quase que simultaneamente. 

Devido ao grosso calibre, o “coice” foi tão forte que a jogou para trás e a fez cair sentada, enquanto ouvia os ganidos do bicho, atingido no quintal. Lembro-me do relato de que no dia seguinte ainda havia umas gotas de sangue no chão e, preso no arame farfado que divisava o quintal, pedaços de trapo oriundos da roupa de quem teria passado correndo entre os arames.

Lembro-me também que relatou que um dos moradores daquela região apareceu no dia seguinte com arranhões ocasionados por arame farpado e sinais de que teria sido atingido de raspão por um tiro de espingarda. Ele era o suspeito de ser o lobisomem que aterrorizava aqueles desertos rincões da Serra da Mantiqueira.

biografia: http://www.sobrenatural.org/relato/detalhar/21446/o_lobisomem_da_serra_da_mantiqueira/

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